Para ‘compreender’ os protestos no Brasil é preciso olhar para a internet

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Está difícil de entender os movimentos que tomaram as ruas do país, declarou o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência. Sem uma liderança nominal ou uma causa específica – já que os protestos incorporaram outras demandas, além da redução das tarifas de ônibus – o que acontece hoje no país vem confundindo os analistas. A falta de uma bandeira “clara” no movimento se deve também à influência da internet.

Quem está acostumado ao esquema tradicional de um protesto imagina que o nome por trás de uma convocação no Facebook tem amplo envolvimento com a causa. Mas não é simples assim. Às vezes um pequeno detalhe é suficiente para o internauta chamar a atenção de seus amigos na rede para um movimento. E assim uma onda social ganha corpo – nos mesmos contornos de uma “rede”, em que cada ponto vai se ampliando com mais ligações.

E estamos falando de comunicação: a mensagem que existe no ponto central pode não ser mais a mesma quando repassada, reprocessada por opiniões e opiniões de cada emissor nas redes sociais. E o básico: antes organizadores de protestos divulgavam sua causa nas ruas, com carro de som ou distribuição de panfletos. Agora basta um computador conectado à internet.

Isso faz muita diferença. Tanto no modo como se contagia as pessoas como na forma que elas mesmas se veem como parte dos acontecimentos.

Uma mensagem de indignação se espalha mais rapidamente e toca no âmago das insatisfações de mais pessoas. Algo próximo do que chamam de “inconsciente coletivo”.

O nome dos movimentos está nas manchetes, não o nome dos líderes. Voltar atrás no aumento da tarifa de ônibus pode aplacar a intensidade das manifestações, mas os governantes começam a ter uma ideia de que vão ter que se esforçar para entender essas “mensagens” de cada internauta – o que está por trás da inquietação geral que existe.

Talvez seja preciso, realmente, dialogar com a população, como tem feito, por exemplo, o governo dos Estados Unidos com o site “We The People”, em que o governo se compromete a se posicionar sobre questões levantadas pela população. Trata-se de uma “ouvidoria nacional” e pública.

As manifestações mostram que muita gente já não concorda com a ideia de que a democracia é apenas o voto como uma carta branca para quatro anos. Em tempos de internet, talvez a classe política finalmente compreenda que não representa o povo por ter sido eleita, mas é, sim, eleita para ser representante do povo.

Há dificuldades maiores e para as quais ainda não há respostas claras. Eric Schmidt, presidente do conselho do Google, e Jared Cohen, diretor do Google Ideas, escreveram no livro “The New Digital Age”, publicado em maio último, que “uma mistura de arrogância e ativismo é universal nas pessoas jovens” e as manifestações iniciadas no mundo digital podem ser fáceis de começar, mas difíceis de terminar – onde esse final significa alcançar um objetivo claro e comum.

Para os autores, a classe política faria uso dos dados disponíveis na própria internet neste novo fenômeno para esculpir uma figura política ideal e afinada com os anseios demonstrados pelos internautas. Isso seria possível porque esses anseios são (ou estão) públicos.

Schmidt e Cohen dizem que isso pode reforçar regimes autoritários, mas que também pode ser bem aproveitado para promover mais abertura em democracias. O fundador do Wikileaks Julian Assange, em resenha do livro publicada pelo jornal “New York Times”, demonstra ser mais cético: para ele, a redução da privacidade causada pela internet vai inevitavelmente tornar regimes democráticos mais próximos dos autoritários e nunca servir ao bem comum e à democracia. Por enquanto vemos o oposto disso.

O fato é que é preciso entender a internet, tendo pouca ou muita informação nela, e analisar esses anseios.  A reação dos governantes ao que está acontecendo no Brasil pode se transformar em uma boa medida que pode reforçar a visão de Assange ou da dupla do Google: a instalação de um populismo auxiliado por supercomputadores e analistas de mídia ou uma abertura honesta de diálogo entre o governo e seus cidadãos.

Fonte: G1