Netflix chega em Cuba custando 40% do salário médio de um cidadão local. Agora só falta a Internet.

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A Netflix chegou em Cuba, pouco menos de 2 meses após a retomada das relações entre EUA e a ilha. O preço? U$7,99, uma verdadeira bagatela… se você não for um cidadão cubano. Assinar o serviço de streaming mais popular do mundo custa 40% do salário médio de um cubano. Com o mesmo valor é possível ir quase 80 vezes ao cinema no país. Mas isso ainda não retrata todo problema.

Cuba continua sendo o único país da América classificado como “não-livre” em relação ao acesso à Internet de acordo com o relatório Freedom on the Net 2014 – Liberdade na Rede, em tradução livre – realizado pela Freedom House. Esta é a quinta pesquisa anual sobre liberdade da internet mundial, e a ONG analisou 65 países de todos os continentes entre maio de 2013 e maio de 2014.

Em 2013, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), órgão que avalia conexões de rede ao redor do mundo, apenas 3,4% das famílias cubanas possuíam acesso à internet. Entretanto, desde julho do ano passado, as autoridades da ilha caribenha vêm tentando aumentar a conectividade no país, lar de mais de 11 milhões de pessoas, e para consegui-lo foram abertos mais de 100 pontos de acesso pelo país. Hoje acredita-se que 5% da população tenha acesso à internet, o número mais baixo do continente.

Contudo, 5 megabytes em Cuba – o tamanho médio de uma música – custam quase 25% do ganho médio mensal no país. O preço de um dólar por megabyte, proibitivamente caro, é fora da realidade do cidadão comum cujo salário gira em torno de US$ 20,00. Anteriormente, apenas os hotéis podiam oferecer internet para o público, mas com um valor absurdo de 10 dólares por hora, quantia que apenas visitantes estrangeiros poderiam pagar.

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A empresa que detém o monopólio dos serviços de telecomunicações na ilha, a estatal ETECSA, não oferece internet móvel aos seus clientes cubanos – sua precária rede 3G é disponível apenas para o uso de visitantes estrangeiros em roaming. Ao menos, a companhia já permite que os assinantes acessem seus e-mails de seus smartphones, mas isso só se aplica aos de domínio oficial @nauta.cu. A companhia também abriu um serviço para enviar imagens a partir de telefones para qualquer endereço de e-mail.

“Cuba continua sendo um dos países mais restritivos do mundo em termos de liberdade na internet”, disse à agência de notícias francesa AFP Sanja Tatic Kelly, diretora do projeto para a Liberdade na Rede. Kelly ainda acrescenta: “Ao invés de confiar na censura tecnicamente sofisticada e no bloqueio [de dados] usado por outros regimes totalitários, o governo cubano limita o acesso dos usuários à informação, principalmente via falta de tecnologia e [através de] custos altos”.

As autoridades cubanas censuram deliberadamente alguns sites – especialmente os de imprensa e blogs que são contra o regime castrista, os de pornografia e o Skype – mesmo assim, Kelly ainda pontua.

“O número total de sites bloqueados [em Cuba] é relativamente pequeno quando comparado com muitos outros estados autoritários como China, Irã ou Arábia Saudita.”

Alguns cubanos com mais experiência em tecnologia descobriram uma maneira de burlar a censura: baixam um software que esconde seus endereços IP para evitar a sua detecção pelo governo e assim o enganam, passando a navegar como se estivessem na rede de outro país, ou seja, fora do alcance do regime.

Ainda, aqueles que têm menos conhecimento tecnológico podem contar com o popular “paquete” – um pendrive sob encomenda recheado de filmes pirateados, programas de TV, música pop e jogos, vendidos no mercado negro por alguns dólares.

Os governantes da ilha dizem que precisam manter um rígido controle sobre a internet para proteger o país de ciberataques. Durante 18 meses, Havana tem sido vítima de ataques cibernéticos de milhares de endereços registrados em mais de 150 países, de acordo com o vice-ministro das comunicações Wilfredo Gonzalez.

Entretanto, Tatic Kelly rebate o ministro dizendo que “não há registros que Cuba sofra uma grande onda de ataques virtuais”, citando como fonte os dados dos especialistas em segurança online do Kaspersky Lab, que classificam Cuba na 199º posição entre os países atingidos por ataques cibernéticos.

O relatório, apresentado em maio, também dá um panorama acerca da rede como um todo. Ele concluiu que a liberdade da internet no mundo em geral diminuiu pelo quarto ano consecutivo, com 36 dos 65 países analisados pelo estudo se tornando menos livres do que eram no ano anterior.

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Segundo a Freedom House, antes os governos optavam pelo controle escondido e dissimulado da rede, agora a nova tendência é criar legislações que legitimam a repressão e criminalizam a dissidência digital. No ano passado, o aumento da pressão dos governos sobre mídias independentes também foi registrado, assim como o aumento do número de presos ou perseguidos por militância virtual.

Um total de 41 países, dentre eles o Brasil, aprovaram leis para criminalizar formas legítimas de expressão on-line, visando aumentar os poderes do governo através do controle de conteúdo. A fiscalização é realizada através da vigilância da vida virtual dos cidadãos. O estudo também afirma que dezenas de blogueiros e jornalistas amadores foram atacados enquanto faziam cobertura sobre o conflito civil na Síria e sobre os protestos anti-governo no Egito, Turquia e Ucrânia.

Em Cuba, a Netflix chegou antes do Japão. Agora só falta a internet.

Fonte: SPOTNIKS